quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Em 1991, quando fui morar com meus avós maternos por uma temporada de 6 meses em sua pequena cidade, pude colocar em prática com mais afinco a minha mente de ''faz de conta''. 

O quintal era enorme, várias árvores frutíferas, pássaros, flores, insetos, animais e seres mágicos... Minha avó ia fazer os demasiados quitutes saborosos com aquelas mãos de fada rainha e vovô ia dar um cochilo em sua poltrona favorita, aproveitava esse momento de distração deles e dava uma escapadela naquele grande livro de contos que eu enxergava naquela imensidão de espaço. 

Havia um pé de erva doce bem no início do quintal, fiz dele um portal, as pequenas flores de erva doce sempre caíam em meus cabelos quando passava por ali, fazia delas meu enfeite naqueles fios de cabelos castanho claro e detalhes avermelhados. 
Cantarolava canções que somente eu entendia, conversava com os pássaros e com as flores selvagens escondidas entre as pedras de sepulturas de antigos animais de estimação, bem no final do quintal, um forno antigo de barro desativado me colocava medo, criei ali um outro portal, o final, a escuridão, não dava muita atenção para ele. 

Com uma lasca de madeira, cavucava a terra em busca de tesouros passados,  encontrava pequenos frascos quebrados de perfumes, pedaços de tecido, ossos de pássaros, sementes variadas, pedras com formatos engraçados... criava histórias com esses tesouros, mas, o que me deixava mais intrigada, eram os fragmentos de cartas, não dava para ler muita coisa, o tempo já havia feito o seu serviço, o mais provável era que poderiam ser notícias de parentes, amigos ou quem sabe, amor. 
Não levava os tesouros comigo, os enterrava de volta, ali era a sua morada, não pertenciam a mim...  o passado as vezes é para ser deixado adormecido. 

Minha pouquíssima idade jamais foi capaz de encobrir o que eu julgava certo para o meu mundo. 
Naquele momento em que eu estava vivendo a minha fantasia inocente, vovó pensava que eu estava obedecendo o que havia mandado eu fazer, rezar... mas, tal ação nunca foi para mim, está aí algo que também não via sentido algum, ficar em um quarto orando para uma fantasia que não era minha? Preferia fugir pela janela (mamãe quando criança fazia muito isso também) e ir em busca de meu bem querer fascinantemente encantador. 

Explorar era magnífico, dava alimento para as minha borboletas do estômago e principalmente para a minha essência naturalmente livre, sedenta por mistérios, histórias encobertas e valorização dos minúsculos detalhes de tempo...

 - Ness Forest


Imagem principal: kyra ashtin (Edição: Ness Forest)
Imagens usadas na edição: Sarah Novak BentTorkel KylbergSaraia77

Tag: Memórias...

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